Titina
ela parecia antiguíssima, como se carregasse eras de mistério dentro de si:
a primeira vez que vi Titina foi na tevê em uma propaganda de uma loja de materiais de construção da cidade.
eu fiquei: quem é essa mulher?
fiquei, mesmo, impressionada com uma potência que saía de seu olhar claro e separado enquanto ela falava sobre pisos (!). eu pensei essa mulher vai consquistar o mundo.
não me surpreendeu quando Titina apareceu em tevê aberta, para o Brasil inteiro, pensei até que tinha demorado para o resto do país conhecer seu talento que, aqui na cidade, se consolidava em uma crescente.
Titina encantou-se. nas redes sociais uma centena de homenagens de amigos, parceiros de arte, fãs. pensei muito em escrever sobre ela aqui mas decidi que queria compartilhar um momento que nunca esquecerei e que sempre que possível falo sobre:
eu conheci Titina em um laboratório de roteiro. ela era uma das idealizadoras e estava ali sentada com outras mulheres da cultura potiguar compartilhando e ouvindo sobre escrever histórias. foi em 2019, antes da pandemia, antes dos meus livros publicados, antes de tanta coisa.
uma das dinâmicas do laboratório era, no improviso, juntar nossos enredos, nossos roteiros em gestação e formar uma história para, depois, interpretá-la.
Titina conversou com suas colegas de dinâmica e nós ali, testemunhando uma mudança que aconteceu em segundos: ela saiu de Titina e foi para Diana. a cena não tinha diálogos e o olhar claro, separado e cheio de ternura de Izabel Cristina ficou duro como pedra. ela estava na personagem. aquela mudança, aquela entrega e talento mexeram tanto comigo que meu choro foi automático.
chorei diante de sua beleza e controle artístico.
aquela impressão que tive, anos antes, quando a vi em um informe publicitário fez todo sentido: não havia tela de tevê, formato de diálogo, parede, distância que parasse o que Titina trazia.
é uma coisa sem nome, para mim. algo de mistério dionisíaco. de força apolínea. foi um momento tão significativo na minha vida que lembro como se tivesse acontecido hoje.
então que no domingo, quando soube de seu encatamento, sofri.
reli algumas das poucas mensagens que trocamos ao longo desse período e
obrigada, Titina.
sua arte reverbera, sua tenacidade é exemplo, você furou uma bolha artística e nos encheu de esperança.
você foi antes e será depois, sendo agora esse vinco na alma dos que te conheceram.
se isso não é eternidade, não sei o que seria.



