Memoriabilia
Edição n°3: minha mãe, o estupro e eu. Ou ainda: o que as fotos registram
Atenção, cara leitora:
Esse é um texto de uma mulher que não tem mais medo dos fantasmas da infância, nem carrega mais a vergonha que suportou. A trajetória agora é encarar o que vier, Molotov.
Alerto também: é um texto que fala sobre um estupro e bullying. Se isso te afetar negativamente em uma dor ainda latejante, sinta-se à vontade em fechar a aba.
Parte 1: As fotos não mostram
Sou filha de uma sobrevivente.
Talvez tenha sido entre os 18 e 22 anos de idade (o Tempo se perdia nas memórias dela) que minha mãe foi estuprada. Digo estuprada, assim, direta e reta, porque é nessa palavra que mora a dor na qual mainha mergulhou e se perdeu.
Abuso sexual não traduz a ferida.
Não há espaço para vergonha nesta parte de nossa vida, só raiva (grande motora do que escrevo).
Sou filha de uma mulher que sobreviveu a um estupro com arma na cabeça.
Meu nome é Danielle de Medeiros Sousa sendo o de Medeiros, dela, que se chamava Ozi Duarte de Medeiros.
As fotos que tenho de mainha, nesse período de sua vida, são lindas em sua maioria e, por elas, não há rastro de sangue, ferida aberta, pus,
sua alma.
Não há sombra de família disfuncional, de mulher em eterna mania.
Não se percebe a sobrevivente.
Minha mãe costumava, quando em crise, percorrer a pé bairro das Quintas, onde ela morou quando mais nova.
Favela do Mosquito.
Talvez tenha sido lá o estupro. Talvez em Candelária, quando o irmão mais velho comprou uma casa para a família e a vida parecia melhorar (não melhorou). A linha de sua vida, uma trajetória bêbada.
Ela me deixava com alguém da família pela manhã e só voltava suada e quebrada emocionalmente, no início da noite. Ela não havia encontrado o que procurava,
mainha, você ia buscar você jovem, não é?
mas você já não existia naquele bairro decadente e com cheiro de rio. você não existia em lugar nenhum, mas precisava existir, inventar uma ozi-mãe, porque tinha uma filha que te esperava ansiosa e desconfiada de que algo não ia bem, sim, sua menina de franja que te esperava nas janelas das casas da família a procurar seu vulto virando a esquina.
Eventualmente, você voltava.
Era por mim que fazia o caminho da volta, hoje sei. Catando no meio-fio das calçadas a força necessária para me pegar nos braços e viver a vida que você achava que não merecia. Por muito tempo eu seria sua âncora e só consigo elaborar até aqui porque isso é muito, tanto para você quanto para aquela menininha que guardava, no fundo da garganta, medo e angústia.
Mas você voltava, até mesmo naquele dia do misterioso bate e volta para Mossoró.
Não existe uma foto sequer sua, ou minha, ou de ninguém, em Mossoró.
As fotos não mostram a mulher que dividiu o Ego, um espelho quebrado, uma cabeça que jogou o trauma em uma cripta, eu na sua cripta, eu e o estupro na mesma masmorra da mente bipolar, a dividir esse espaço em seu corpo, nos sonhos e pesadelos, na vida errática sem nunca deixar passar o almoço da filha, sempre quente, mesa posta, feijão verde, bife, arroz soltinho, as blusas da escola sempre brancas convivendo com sua vida parcialmente misteriosa nos becos que desembocavam na Felizardo Moura.
Para onde você ia enquanto eu passava a manhã na escola?
Para onde seus pés inquietos e mente nervosa te levavam enquanto eu ficava sozinha com a prima assediadora que prometia esmurrar minha cara (eu tinha seis anos) se eu contasse dos namorados que ela via escondida?
Que me vestia com roupas grandes e me maquiava de maneira ridícula, só para rir da minha cara com suas amigas, me chamando de palhaça?
Que batia a porta do quarto dela na minha cara porque, deixava bem claro, me detestava (logo eu, que gostava tanto dela). Eu era feia, fedorenta, ninguém da casa lembrava do meu nome e todas essas coisas que não se fala para uma criança de seis anos.
Para onde você ia, mãe, enquanto a prima perfeita puxava meus cabelos e me ensinava pornografia?
Bem, gosto de pensar que nossas fotos mostram o que queríamos ser e conseguimos dentro do simulacro da folha da revelação Kodak.
Parte 2: As fotos-ficção
As fotos mostram nossa família tentando.
Inventar um sorriso é, de certa forma, torná-lo real. Se não para nós, no momento que sorrimos, de certo, para alguém que nos olha à distância.
Veja, elas sorriem. Irão dizer.
Como negar a materialidade do sorriso ficcional?
A ficção é a arte do investimento. É uma moeda de troca que barganhamos com o Tempo.
O estupro, por exemplo, virou “o acidente”.
A menina medrosa que sofria bullying da prima virava uma garotinha risonha.
Painho e mainha ficionalizavam paz.
A prima agressora sorri, comigo ao lado, em sua festa de quinze anos.
Como negar a concretude das mãos dadas naquele passeio no shopping em 1998?
A foto não possui sombra de passado, a foto é a mais pura e simples ficção da vida real.
Nas frestas das dores, há sempre o que inventar.
Inventar a si e depois se tirar da própria invenção. Morrer, só para ser eterna (?)
Só assim se sobrevive.
Só assim sobrevivi à sobrevivência de minha mãe enquanto tentava me salvar.
Mainha,
te vingo (me vingo, eu sou você) nos meus livros.
E nas fotos.
Oi.
O texto que você leu faz parte de uma série que venho montando sobre a investigação contínua que faço sobre memória, narrativa, ficção e subjetividade que é a base dos meus textos ficcionais, que é a base da Mentoria Literária que desenvolvo desde o ano passado, que é a base de quem sou.
É essa a explicação.
Porque quero.
Se você quiser também, convido a acompanhar os outros textos que virão na quinzena e já estão agendados.
✍️ Novidade 1:
Agora tenho um site oficial [em construção] para condensar e divulgar meu trabalho literário, acesse para conhecer: aqui.
Além de links, vídeos e resenhas, você encontra amostras grátis dos meus dois livros:
No Horizonte, a Terra - compre aqui.
✍️ Novidade 2:
Em breve a coletânea Rural Noir (Casa de Astérion) sairá com um conto meu: Céu da boca.
Em breve mais notícias sobre a pré-venda e lançamento.
Beijos,
Dani






Texto lindo e sensível, querida!❤️