Memorabilia
Edição n° 1: O mel elabora-se nos favos. Ou ainda: a mulher com a cabeça de rosas.
Desde que li o ensaio de Olga Tokarczuk vi meus pensamentos carcomendo os quatro cantos da cabeça ensaiando a assertiva de que
Minha Narradora é minha Memória.
Percebi de maneira consciente1 que a memória não é um arquivo que visitamos de em vez quando, voluntariamente ou não, abrindo as gavetas de aço dos armários enferrujados para acharmos uma pasta mofada cheia recortes e folhas datilografadas com
informações.
in·for·ma·ção
1 Ato ou efeito de informar(-se).
2 Conjunto de conhecimentos acumulados sobre certo tema por meio de pesquisa ou instrução.
3 Explicação ou esclarecimento de um conhecimento, produto ou juízo; comunicação.
4 Notícia trazida ao conhecimento do público pelos meios de comunicação.
5 Explicação sobre um processo dado por funcionário de repartição após este ser despachado ou solucionado por autoridade competente; comunicação.
6 Relatório escrito; informe.
Não.
Ela não é um museu com quadros pendurados a formar sombras nas paredes.
A memória é uma senhora que em frente a uma casa, senta em sua cadeira de balanço a comentar a vida dos vizinhos às vezes em voz alta, às vezes sem abrir a boca.
A memória é ativa.
Cria e recria momentos (nossos e dos outros), silencia-os (acredito que isso também é narrativa) só para voltar a contá-los quantas vezes for necessário, quantas vezes o presente forçar mudança de ponto de vista.
A memória é, por si, uma ficcionista porque não para: inventa, guarda, faz morrer, faz viver. Sua ficção é inata, porém involuntária e o perigo disso é ser confessional quando me ponho a escrever porque quero passar longe de individualizar experiências quando uma ideia surge e eu sei que ela precisa ganhar meus dedos no teclado, me dissociar completamente da vida de servidora pública, mãe, filha, esposa, professora… seja lá o que for que me classifique.
Não quero, não por favor, nunca, escrever como se estivesse diante de um padre a dizer minha culpa, minha máxima culpa.
Não quero psicografar minha memória (é isso!) porque a quero como instrumento,
a quero como ponto de partida,
não de chegada.
Retirar a primeira pessoa do singular.
Jamais começar uma frase com Eu.
O dialeto a serviço do mundo que crio dentro da memorabilia que me ataca quando estou com sono. Esse túnel sem dispositivo de segurança que me leva direto, e sem paradas, até a superfície do meu inconsciente (jamais, nunca, ir para o fundo).
Mais nova, quando me via diante desses cenários gigantes, mapas de cidades que nunca fui, conversas entre pessoas que nunca vi, pensamentos intrusivos com a mandíbula travada de tanta nostalgia, achava mesmo que ia ser maluca, que ia ter o fim de minha mãe: presa em uma cela do João Machado na ala feminina, haloperidol e fernegam na veia dela, urgente, a cabeça a se distanciar cada vez mais da realidade, até ela não fazer qualquer sentido.
Achei mesmo que ia ser tantan, doida varrida, uma coitada, pobrezinha da filha da mulher maluca.
Mas sei lá porque dos códigos genéticos e contra a certeza de muitos de que seria a próxima maluca dos Medeiros, resisti a infância traumática com ferramentas ainda cegas da falta de experiência e consegui entrar em modo de
elaboração.
e.la.bo.rar
1 Preparar ou organizar gradualmente, com trabalho.
Por exemplo:
Os deputados elaboraram o projeto de lei.
2 Dar combinação especial a.
Por exemplo:
Elaborou os ingredientes, dando ao prato um sabor especial.
3 Tornar(-se) assimilável; alterar(-se), modificar(-se), transformar(-se).
Por exemplo:
O cozimento elabora as carnes.
4 Tomar forma; formar-se, operar-se, produzir-se.
Por exemplo:
O mel elabora-se nos favos.
Foram décadas de
elaboração.
Fui a menina estranha da escola, a prima calada que não queriam por perto, a sobrinha que os tios desconfiavam porque lábios fechados, cabeça a mil: reconheço padrões, os tortos, digo.
De longe.
Elaborar internamente e transformar isso em outra coisa: muito menos minha, muito mais linguagem usando o que foi ouvido, doído, gritado, derrubado, cochichado, roubado, assediado, traumatizado na pele, nos sonhos, no quarto escuro e assombrado pelo demônio na casa da rua são josé 1324.
Material extenso, tenho. Argila sem forma que preciso moldar entre os dedos, linha que preciso fiar, tecer colcha, pintar bonito, pendurar na parede.
Escrever.
Oi.
Você leu a primeira edição de uma série de textos que venho montando sobre a investigação contínua que faço sobre memória, narrativa, ficção e subjetividade que é a base dos meus textos ficcionais, que é a base da Mentoria Literária que desenvolvo desde o ano passado, que é a base de quem sou.
É essa a explicação.
Porque quero.
Se você quiser também, convido a acompanhar os outros textos que virão na quinzena e já estão agendados.
Beijos e até breve.
✍️Informes:
Mentoria: escrita e subjetividade, onde o texto começa?
Desde 2021 faço leituras críticas (trabalhei para Ed. Escaleras fazendo esse tipo de serviço) e oficinas de escrita criativa.
Esse ano abri uma turma de mentoria com duas vagas: preenchi na primeira semana e, passado um pouco mais de dois meses, vejo dois livros sendo montados, lapidados e, sem dúvidas, muito perto de se lançarem para a busca de uma casa editorial.
Hoje tenho mais duas vagas para essa mentoria. Deixo aqui algumas informações, nas imagens que seguem esse texto (encontros via Google Meet).
Se você se interessou pelo serviço, entre em contato comigo ou por aqui ou pelo e-mail: danisousa@outlook.com
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✍️Novidade:
Agora tenho um site oficial [em construção] para condensar e divulgar meu trabalho literário, acesse para conhecer: aqui.
Além de links, vídeos e resenhas, você encontra amostras grátis dos meus dois livros:
No Horizonte, a Terra - compre aqui.
O quero dizer é que o óbvio (a relação entre memória e ficção, no caso) precisa ser dito em voz alta, escrito de maneira inteligível porque é tão evidente, agora, neste momento mesmo, que o ser morto dentro de mim, esse mesmo que me conta histórias, é Minha Memória.




